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domingo, 17 de janeiro de 2010

Histórias curtas da guerra

A II Guerra Mundial (1939 – 1945), da qual o Brasil participou a partir de 1942, deixou muitas histórias e mexeu com o imaginário popular, além de mudar radicalmente hábitos e convenções sociais (inclusive no Alegrete):

1 – Casa-se durante a guerra?

Minha irmã Luzia, em 1942, estava de casamento marcado em Alegrete com Aldemo Tripovichy que era ferroviário em São Borja. Com a entrada do Brasil na guerra os ferroviários foram declarados participantes do esforço de guerra e proibidos de se afastar de suas sedes, mesmo em seus dias de folga. A solução encontrada foi o casamento por procuração: o noivo foi representado por seu pai, Armando Tripovichy, que após a cerimônia levou a noiva para São Borja, ao encontro do marido.

2 – Notícia no rádio

As notícias chegavam pelas ondas curtas do rádio, um aparelho grandão, à válvula, cujo som chegava de um alto-falante colocado atrás de uma malha de tecido ortofônico; falavam da guerra, do presidente da República (Getúlio Vargas) ou executavam as músicas da moda no centro do país, como a valsa (de Mário Rossi e Gastão Lamounier) “...E o destinou desfolhou”. Misturando tudo isto eu ia para trás do encosto de palhinha trançada de uma cadeira (simulando o tecido do alto-falante do rádio) e dizia:

-- Notícia de última hora: o Getúlio desfolhou!

3 – Ovo Indês

Morávamos numa casa alugada, ao lado da casa da proprietária, Dona Didi. Esta senhora criava galinhas e vendia ovos para a vizinhança. Um dia minha mãe me mandou comprar ovos na casa ao lado; não havia ovos para a venda, apenas ovo indês (aquele que se deixa em cada ninho para estimular a galinha a por mais ovos sempre no mesmo local). Em função das nacionalidades em confronto na guerra, eu retornei com o recado:

--Dona Didi mandou dizer que só tem ovo inglês!

4 – Definição de guerra

No auge da enchente de 1941, meu irmão Pedro me colocou sobre seus ombros e saiu a caminhar sobre a linha do trem, da estação ferroviária  em direção à ponte sobre o Rio Ibirapuitã. Num certo ponto ele me mostrou uma casinha invadida pela água, cujos moradores aguardavam, sobre o telhado da mesma, a chegada do barco que iria resgatá-los. A imagem ficou gravada em minha recordação.

No ano seguinte o Brasil entrou na guerra; não se falava em outra coisa; quando eu quis saber o que era guerra, ninguém queria me dizer que era uma loucura que fazia os homens se matarem por coisas sem importância (como nacionalidade, idioma ou ideologia política). Apenas me falaram que era algo terrível, que causava grandes danos às pessoas. Guerra, para mim, passou a ser algo semelhante a um grande volume de água que cobria e destruía tudo, como a enchente do ano anterior.

2 comentários:

Prof. Márcia Szerszen disse...

OI tio Chico é bom saber que o senhor tbm é um blogueiro de plantão. Seja bem vindo!!!!! bjs Marcia

Gabriela D'Andrea disse...

Agora já sei que tenho de quem puxar meu hobbie preferido...

Pode ter certeza que vou passar sempre por aqui!