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segunda-feira, 7 de outubro de 2013


DE FANTASMAS e ALMAS PENADAS – I

 

Depois do jantar a molecada da Gal. Sampaio se reunia para papear. No inverno a gente trazia a capa Ideal de chuva/frio e com umas forrava a soleira de porta onde a gente sentava, e se cobria com outras. O assunto eram estórias criadas pela imaginação de cada um, que em pé a contava aos demais; eram estórias de selva (Tarzan e afins), de viagens espaciais (Flash Gordon) para planetas habitados por homens de vidro ou de gelo ou de areia e por aí vai.

 

No verão a disposição e os temas eram diferentes: ficávamos em rodinhas, em pé em frente a uma casa e o assunto preferido eram fantasmas ou almas penadas (aquelas que carregavam um saco nas costas ou um rosário pendurado no pescoço ou saltavam das paredes para o chão, procurando interagir com os vivos); a gente tinha muito medo e falava para aliviar.

Certa ocasião em que conversávamos, o Vando era que estava mais próximo à parede; foi quando ouvimos uma espécie de guincho de pavor e algo bateu nas costas do Vando;  nós todos corremos apavorados. Era apenas um gato que costumava pular a janela para seu passeio noturno e naquela noite encontrou um obstáculo inesperado e, sem poder abortar o salto, guinchou de pavor.

A gente se recompôs em seguida e passou a rir do susto. O Vando e o gato devem estar correndo até hoje, não lembro de tê-los visto de novo.

Luís e o Lobisomem.

 

Esta é do tempo em que  eu trabalhava, chefiando o Departamento de Informática; muitos programadores trabalhavam de dia e estudavam de noite.

Certo dia o Luís chegou falando que na faculdade haviam contado histórias de lobisomem e que ele tinha dúvidas sobre a existência do dito cujo. Dúvidas: foi o que bastou para alertar os gansos; os colegas de sala resolveram pregar uma peça no Luís e me colocaram a par da sacanagem; no dia seguinte retomaram o assunto sobre lobisomem e todos disseram que acreditavam na existência do bicho, e o Luís sempre em dúvida. Foi quando o Magrão sugeriu  ao Luís: pergunta ao chefe se existe ou não lobisomem, e ele veio até a minha sala.

Luís: Chefe, será que existe lobisomem?

Eu: Mas claro que existe, rapaz; se fores no Museu Júlio de Castilhos, ali na Duque próximo ao Palácio do Governo, poderás ver o couro que lá está exposto, estaqueado e seco, de um que mataram.

A partir daí o Luís não só passou a crer em lobisomem, como também passou a discutir com os colegas de faculdade que não acreditavam.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013


NOLI e o LOBISOMEM

Quando a gente ainda era molecote costumava, após o jantar,  se reunir na rua para bater papo. Quase sempre passava por ali um moço bonito, forte e que ficava a nos contar a briga que tivera, na madrugada anterior, com os “milicos” (brigadianos), em algum boteco dos Canudos ou no cabaré da finada Aurora; nestas brigas, é claro, ele sempre levava vantagem. Esse moço era o Noli - filho do Seu Brasil que tinha salão de barbearia na Gal. Sampaio na quadra entre a Santa Casa e os trilhos - mentiroso maior não havia.

Numa noite escura, sem lua, o Noli veio contar sua valentia e nós o desafiamos a ir pela linha férrea de Uruguaina  até a 1ª ponte que havia, na sanga que tem antes dos quartéis. O Noli foi, assobiando, mas logo depois voltou esbaforido, correndo;  nos disse que tinha visto um lobisomem e se foi embora para sua casa.

O medo estampado na cara do Noli era tão real que a molecada resolveu conferir, afinal o grupo era grande e uns davam coragem aos outros. Fomos em direção à ponte e vimos o vulto do quadrúpede  se movimentando no acostamento da linha; fomos chegando, chegando, cheios de receio e vimos: o lobisomem do Nolí era apenas um burrico, um jumentinho, pastando por alí.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013


ZEZA, o  bandido.


No fim da década de 40 apareceu no Alegrete, ali nos Canudos, um sujeito com ares misteriosos, chamado ZEZA; era melenudo, usava vasta barba, tinha a pele muito clara e se vestia todo de preto (a bombacha, a camisa e o lenço de pescoço). Diziam que ele era bandido, já estivera preso na Casa de Correção em Porto Alegre e que chegava nos botecos e já armava uma briga.

Contam que certo dia o Misael Correa filho, o Misaelzinho, foi comprar alguma coisa no boteco e foi desacatado pelo ZEZA que estava ali bebendo;  o Misaelzinho contou ao pai o que ocorrera; contam que o Seu Misael Correa, o pai, morador da Gal. Sampaio e que era um homem valente, colocou o revólver na cintura, foi até o boteco e falou para o ZEZA:

---Tu desacatou  meu filho ainda há pouco; que seja esta a última vez que eu te vejo no Alegrete;  na próxima vez te atoro essas melenas a tiros, como quem atora cola de égua... e não adianta correr, que te rodeio o c* à bala.


Si non é vero, é bene trovato: o ZEZA nunca mais foi visto no Alegrete.